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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Querido Papai Noel...




Querido Papai Noel

Meu nome é Fernanda e sou uma codependente em crise. Eu odeio final de ano. Na minha casa, Natal e Ano Novo nunca foram motivo de festa. Na minha memória, poucas vezes tivemos comemorações nessa data. Nunca tivemos uma árvore de Natal ou qualquer outro tipo de decoração. E as músicas felizes que ouvimos eram de um disquinho que eu ganhei na farmácia um ano em que tive intoxicação alimentar e passei a véspera de Natal tomando injeção.

A casa sempre ficava triste nessas datas porque meu pai se lembrava da mãe dele, que morreu antes de eu nascer. Então, o clima nunca ficava bom por lá.

Quando eu era adolescente, gostava da noite de Natal e Ano Novo porque queria abraçar os meninos bonitos na praça. Depois, isso passou, e voltei a não ter mais motivos para sorrir no mês de dezembro porque todo final de ano passou a ter uma tragédia na minha vida.

Talvez nem tudo tenho sido tão ruim, mas acabei associando uma coisa a outra. Esse ano, algumas coisas não tão boas já aconteceram, mas estou tentando não culpar os últimos meses de 2014. Mas vamos combinar que o ano poderia ir de 15 de janeiro a 15 de setembro. Caso fique na dúvida para o meu presente do próximo ano, lembre-se disso. Eu iria gostar.

Mas, hoje, o que me deixa mais arrasada nessa época mesmo é saber que muitas crianças vão ficar sem presente. Nas cartinhas que elas te enviam muitas nem sabem bem o que pedir, tamanha a carência delas. Pedem qualquer coisa porque não têm nada.

Como eu te disse, sou uma codependente. Sofro todos os dias porque não tenho condições de abrigar os cães deixados à própria sorte pelas ruas. Gostaria de cuidar de todos eles como cuido do meu quarteto de amor - Mel, Juana, Xuxinha e Zé Luís. Mas já entendi que não dá. Os recursos são limitados. Físicos, financeiros e emocionais. Acho que não suportaria tantas perdas. 

Passo o ano todo tentando me convencer disso e aí chega o Natal e, junto com os animaizinhos abandonados, tem as crianças que pedem material escolar, roupa e até comida porque os pais não têm condições de lhes dar
isso.

Sabe, eu entendo que essa é a necessidade física deles, mas, para que a magia do Natal seja de verdade para outras crianças, diferente do que foi e é para mim, acho que elas deveriam ganhar brinquedos. Tenho certeza que de barriga cheia tudo fica mais bonito e colorido, mas um boneco do Homem Aranha ia fazer uma criança mais feliz, pelo menos por hoje, do que um copo de leite.

Sei lá, pode estar tudo errado. Mas eu sei que tudo isso tem me feito muito mal. E nem adianta vir me falar em aceitação da proposta encarnatória. Não dá. Agora não. Os dias estão cinzas, não tenho tido disposição para muita coisa. Só ver o tempo passar. Espero que passe logo. 





sexta-feira, 5 de setembro de 2014

"Só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram..."

Cecília Meireles é uma das minhas poetas preferidas. Leio e releio seus poemas e sempre me impressiono com a solidão, do desencontro e até o abandono contida neles. Por vezes, são acompanhados de dor; outras, são retratados com leveza e resignação. 

Sempre me identifiquei com eles, e alguns trago nesta seleção. 


"
Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram."

Boa noite e bom final de semana a todos!


"Noções

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.


Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera..."



“Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.”


“De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto,
meu peito é puro deserto.
Subo monte, desço monte.”


“Eu ando sozinha
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.”


“Quem nasceu mesmo moreno, 
moreno de vocação
gosta de mar e sereno, 
de estrela e de violão.
Pode até gostar de alguém
Mas nunca deixa a solidão.”


“Tudo em ti era uma ausência que se demorava: 
uma despedida pronta a cumprir-se.”


“Não faças de ti um sonho a realizar. Vai. Sem caminho marcado. Tu és o de todos os caminhos.”






segunda-feira, 3 de março de 2014

Um fantasma me assombrando: Vá!


Hoje acordei assombrada por um velho fantasma: a necessidade de controlar!
Desde muito cedo na minha vida, provavelmente por conta dos cuidados excessivos de meus pais com a minha irmã, que adoeceu quando era recém-nascida e quase morreu, eu cresci muito independente.

Aprendi a resolver meus pr
oblemas sozinha. Não me lembro de meus pais terem ido a reuniões na escola, não terminei a pré-escola porque não queria acordar cedo, viajava para Campinas aos 13 anos sem acompanhante, achei a república onde ia morar os primeiros seis meses em Bauru por telefone, sem que ninguém me auxiliasse.

Anos depois, isso me fez remoer sentimentos de abandono, mas no final das contas agradeço por ser assim, tão decidida e determinada.
Nunca parei e disse: não sei o que fazer. Geralmente, eu faço o que precisa ser feito, e os efeitos vêm depois. Porque ser decidida não quer dizer tomar as melhores decisões.

Além disso, apesar de acreditar nesse poder de decisão como uma virtude, essa condição também não me ensinou a pedir ajuda. Também me formou um ser com pouca paciência e aceitação com os limites do outros.

E hoje eu acordei incomodada pelo fato de que não consegui fazer ainda nesses dias de folga tudo aquilo que havia me proposto antes de ele começar. Pensei logo cedo: se estivesse sozinha em casa tudo estaria feito, tudo estaria pronto.


Tenho uma lista de tarefas para os dias de Carnaval e nenhuma delas foi riscada ainda. Está me dando tanta coceira, tanta impaciência que tenho vontade de gritar.... rss Vamos pensar que há um agravante nisso tudo....... os quase três anos sem férias!!

Esse sentimento de que posso resolver tudo sozinha e que não preciso de ninguém provoca lutas intensas dentro de mim. Preciso todos os dias me lembrar de que preciso aceitar os meus limites, entender a necessidade de viver com as outras pessoas, me comunicar com elas e, principalmente, deixar que elas participem da minha vida.

Preciso aceitar essa vida em par, para que eu saia do controle às vezes, que eu consiga deixar que alguém me ajude a tomar decisão ou, simplesmente, tome uma decisão conjunta.

É difícil e doloroso, um exercício diário que eu tenho que fazer quando minhas falas com quem está ao meu redor são apenas ordens. "Vá!!"