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quinta-feira, 3 de abril de 2014

Livros com 'v' de Volta... e uns poeminhas!

No momento em que descubro que tenho mais um livro perdido por aí porque quem o emprestou não devolveu, meu mau humor explode.

Se você está com “Assombrações do Recife Velho”, de Câmara Cascudo, "Amor nos Tempos do Cólera" e as principais obras de Ignácio de Loyola Brandão me devolva já! –

Enquanto eu espero que alguém tenha a dignidade de aparecer com um deles, poeminhas para tentar melhorar o dia. 

#bomdiapravocequedevolveoslivrosqueempresta





"Atirei um limão n'água
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito
Atirei um limão n'água
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho."
"Lira do amor romântico", de Carlos Drummond de Andrade, em "Amar se aprende amando"


"Eu sou carvão!
Tenho que arder
e queimar tudo com o fogo
da minha combustão."
José Craveirinha


"Me tornei cantiga determinadamente
e nunca terei tempo para morrer"
Solano Trindade


"Quero um dia para chorar,
Mas a vida vai tão depressa!
- e é preciso deixar contida
a tristeza, para que a vida,
que acaba quando mal começa,
tenha tempo de se acabar"


"Não por mim, mas por ti choro,
- por teu pálido momento.
Vou-te dando a vida toda,
e assim mesmo vais morrendo..."
“Canção”, de Cecília Meireles


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Solano Trindade e a Literatura Afrobrasileira

No livro "Malungos na Escola - Questões Sobre Culturas Afrodescendentes e Educação", Edimilson de Almeida Pereira (Editora Paulinas) divide a literatura negra em duas classes - aquela feita por autores negros, mas sem temas diretamente relacionados a suas origens, e aquela feita por negros e não negros com temática essencialmente negra.
Na primeira lista estão Machado de Assis e Lima Barreto, por exemplo.
Na segunda, embora não esteja na relação de Edimilson, que trata de escritores mais contemporâneos, podemos listar Solano Trindade.
Este pernambucano nascido no Recife, no dia 24 de julho, há 106 anos, pode ser considerado o maior nome da literatura negra no Brasil - foi ele o primeiro a escrever especificamente para negros e sobre negros.
Como tantos outros negros acuados deste país, Solano Trindade cresceu em uma família que, socialmente, se dizia católica, mas nos fundos da casa falava iorubá e virava no santo.
Mas, para falar das suas origens, divulgar a cultura e os intelectuais negros e, sobretudo, para defender as minorias, o povo, Solano não se prendeu a seus versos. Foi militante, fundou frentes e centros culturais, veio até o Sul e Sudeste do País para fazer teatro popular e fundou um pólo de cultura e tradições afros, voltado também para o folclore e a denúncia do racismo.
Partidário de Luiz Carlos Prestes, foi preso duas vezes pela Ditadura Militar no Estado Novo, uma delas por causa dos versos do poema "Tem Gente Com Fome", publicado no livro "Poema de Uma Vida Simples", de 1944.
O legado - Como legado deixou os livros "Poemas de uma vida simples", "Poemas Negros", "Seis Tempos da Poesia" e "Cantares do Meu Povo", e o aclamado poema "Trem suja da Leopoldina". Além a filha Raquel, que dissemina seus estudos e criações e dá continuidade às pesquisas da cultura afrodescendente no Brasil através da dança e das artes plásticas. E do neto Vitor da Trindade, que gravou com os filhos Manu e MC Trindade um CD com as poesias do avô.
Elogios dos cânones - Sem constar nas enciclopédias literárias e livros didáticos, Solano Trindade, poeta que fazia poesia ao "estilo do nosso populário, buscando no negro o ritmo, no povo em geral as reivindicações sociais e políticas e nas mulheres, em particular, o amor" - segundo suas próprias palavras, foi reconhecido por quem figura entre os cânones. 
Sobre "Poema do Homem" e "O Cantos dos Palmares", Carlos Drummond de Andrade disse: "Há nesses versos uma força natural e uma voz individual, rica e ardente, que se confunde com a voz coletiva".

Para o ensaísta e crítico literário Sérgio Milliet, o livro "Cantares ao meu Povo" é a tomada de consciência do que Sartre chamou de negritude.
A história de Solano Trindade também está no documentário "Solano Trindade 100 anos", de Alessandro Guedes e Helder Vieira, vídeo que traz depoimentos de familiares, amigos e estudiosos e registros audiovisuais do poeta que escreveu uma das minhas frases preferidas - "Me tornei cantiga determinadamente e nunca terei tempo para morrer".No vídeo abaixo, Raquel Trindade declama "Trem Sujo da Leopoldina", em trecho do documentário "Geraldo Filme". Confira.