quarta-feira, 9 de abril de 2014

Dossiê H: Homero, epopéia, cegueira e teoria literária...

Logo depois do Natal alguns dias de folga e, como não podia dirigir, fui para a praia de ônibus e aproveitei para fazer algo que adoro - ler durante a viagem.

Escolhi um livro que comprei há tempos - tenho o hábito de sempre entrar nos sites das livrarias e procurar livros com desconto, principalmente de autores que eu nunca li... Este é um caso de "Dossiê H", de Ismail Kadaré, autor albanês que escreveu também "Abril Despedaçado", a mesma história do filme de Walter Salles.

Tirando esta adaptação para o cinema, o escritor não é muito conhecido por aqui, mas na Albânia ele é a principal referência em literatura.
Nunca tinha lido nada dele até então. O livro estava lá entre os outros fazia uns quatro anos e não sei por qual motivo nunca tinha me empolgado em lê-lo antes. Também não sei explicar porque quis ler desta vez.
Para quem gosta de conhecer autores de outros países, fora da lista dos cânones, vale as horas de leitura. Quem quiser se aventurar por outras obras dele, indico “Abril Despedaçado" e "O General do Exército Morto".
Gostei de "Dossiê H", porém ele não empolga qualquer leitor. Muita gente não passaria da vigésima página. Mas eu, com alguma insistência, fui em frente e fiquei feliz com o resultado.
O livro conta a história de dois pesquisadores irlandeses que vão para uma cidadezinha localizada nas montanhas da Albânia para pesquisar a epopéia do local... Segundo um especialista em Homero, é lá que está a última manifestação autêntica da epopéia do grego... E lá vão eles à procura dos rapsodos com uma novidade para a época: um gravador para registrar os cantos.
A chegada dos estrangeiros mobiliza toda a comunidade local, principalmente o subprefeito, que acredita se tratar de espiões porque a epopéia é a metáfora do autor para tratar dos conflitos nos Bálcãs, dos combates históricos entre Albânia e Sérvia.
Falando assim, parece de fato interessante... pelo menos a mim interessaria... mas o detalhe é que quem não curte teoria literária vai achar um porre. O tempo todo os personagens ficam falando sobre as relações entre a epopéia de Homero e a albanesa, porque os rapsodos omitem um trecho da epopéia em dado momento e lembram em outro, quais os fatores que levam ao esquecimento, como os personagens da história grega se assemelham com os da albanesa... e por aí vai.
Para quem curte teoria literária é um prato cheio, dá para fazer várias considerações junto com eles, mas quem não gosta não lê mais que 20 páginas...

É interessante também como ele relaciona a cegueira de Homero com a cegueira de um dos personagens principais, a dos próprios rapsodos e a necessidades de ouvir mais do que ver para se contar boas histórias.
Também gosto como ele intercala a narrativa principal com narrativas paralelas, em que aparecem os relatórios do informante - texto truncado e técnico admirado pelo subprefeito - e as anotações de um dos pesquisadores.
Fora isso, é rápido e bom de ler também deitado na areia da praia, tomando sol e ouvindo o barulho do mar. Ai...

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